quinta-feira, 8 de junho de 2017

SAFO - A RAINHA DE LESBOS

             

              Lesbos era a ilha das paixões e o centro da cultura eólia da raça grega. A energia que os jônicos consumiam pelo prazer, pela política, pelo comércio, pela ciência, pela legislação e pelas artes eram restringidas à esfera de emoções individuais. Em nenhuma época da história grega, tomaram o amor à beleza física, à sensualidade ante a natureza radiante, o fervor consumado do sentimento pessoal, tão grande proporções e receberam tão ilustre expressão com em Lesbos.
              Foi ali que desabrochou a mais bela poetisa lírica de que o mundo teve conhecimento. Nasceu por volta de 612 antes de Cristo em Freso, na ilha de Lesbos. Assim a definiram os sábios Platão que a chamou de "a décima musa" e Sócrates de "abela". 
              A voluptuosidade da poesia eólia não é como a da ate persa ou árabe; é grega nas suas proporções, no seu tato e no seu domínio de si. 
             Nas poesias de Safo está tudo tão ritmicamente em ordem pela arte da serenidade, da grandeza, da expressão, do abandono e da paixão.
             Safo, que se chamava Psafa no seu dialeto eólio, foi a única poetisa do mundo grego antigo. Ela viveu antes do nascimento de Gautama, fundador do Budismo. Sua poesia foi forte suficiente para resistir a mais de vinte e cinco séculos. Sua importância ultrapassava fronteiras. A sobrevivência da sua obra deve-se às citações de gramáticos e de lexicógrafos, sem os quais nenhuma palavra teria chegado aos nossos dias. Apesar do tempo e das dificuldades gráficas, suas obras se conservaram intactas até, pelo menos, o terceiro século da nossa era. 
             Embora não pareca existir evidência afirmativa, consta que as obras de Safo e de outros poetas líricos foram queimadas em Constantinopla e em Roma no ano 1073, no papado de Gregório VII. Já cardano dissera que esta queima foi sobre o regime de Gregório Nazianzeno, cerca do ano 380 de nossa era. Pedro Alcídio diz ter ouvido, quando muito novo  que muitas obras de poetas gregos foram queimadas por ordem dos imperadores bizantinos e em seu lugar foram circulados os poemas de Gregório Nazianzeno. O Bispo Bloenfield declarou que devem ter sido destruídas bem cedo, porque nem Alceo e nem Safo foram anotados por qualquer dos gramáticos ulteriores. Não há sombra de dúvidas que sua obra era grandiosa. Poucos foram os preciosos versos que escaparam à destruição promovida pelo anti-paganismo. 
             Mas quem foi esta misteriosa poetisa Safo? Sou nome é encontrado em todo o lugar, mas o mistério permanece. Que existiu, não há dúvidas, mas quais terão sido as sublimes artes que usou com as mulheres? Era tão mulher ao ponto de suas seguidoras serem chamadas de sáficas. Não tinha medo do homem, fosse ele de pequeno ou grande cérebro, a ponto de dizer "eu amo as mulheres e elas me amam".Safo excitou e foi banida pelos seus contemporâneos porque adorou e depravou centenas de garotas. Seu fim foi dramático como ela própria: suicidou-se, aos 55 anos, quando percebeu que o homem que amava não a queria e ainda a  insultava. Uma grande poetisa, talvez a maior de todos os tempos. Possuidora de um caráter mórbido e melodramático, de personalidade inquieta, sonhadora e erótica. 
              As jovens de hoje, que possuem os mesmos gostos apaixonados, comentam a sua história por ter ouvido falar. 
              As verdadeiras herdeira de Safo são as intelectuais que conhecem o essencial de sua vida e seu modo de amar. O orgasmo sáfico é muito mais cerebral; é uma apaixonante dedicação física a outra mulher, seja ela ativa ou passiva. 
              Dos doze mil versos, sete mil enlouquecidos e cheios de líbidos, belíssimos - em sua grande parte foram queimados pelas Cruzadas. 
              De todas as maravilhosas poesias  que dedicou às suas amantes, somente a última chegou completa até nós. 
ODE AO AMOR
ou
ODE A VÊNUS - Por Safo. 
Filha de Jové, que tens altares
Em cem lugares, Diva Falaz: 
Ah! poupa magoas a que te adora
A quem implora favor e paz. 
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Tu já outrora piedosa ouviste
O brado triste da minha voz.
E da paterna mansão celeste
a Mim vieste pronta e veloz.
Ao níveo carro jungido tinhas
Das avezinhas o meigo par, 
Ela voando pelo ar sereno 
Em prado ameno veio pousar. 
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E tu, sorrindo, de mim diante 
Meigo o semblante falaste assim: 
"Safo, eu te vejo tão consternada, 
Por que magoada chamas por mim? 
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"Paixão te oprime? Gemes, suspiras 
Dize, a que aspiram com tanto ardor? 
Alguém, ingrato, se te não rende? 
Ah! que te ofende com tal rigor? 
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"Há de rogar-te, se te ora enjeita
Teus dons rejeita? Dons te dará; 
Desquer-te amado? Por ti já esquiva
Em chama ativa se abrasará". 
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Também agora, deusa benigna
A mim te digna dar proteção;
Auxiliadora neste conflito
Vale ao aflito meu coração. 
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                Safo era um verdadeiro homem, genitalmente mulher, com virilidade pelo frágil sexo. Sua infância foi em Mitilene, onde vivia com três irmãos, invejando-os por seus atributos sexuais masculinos que eram seu sonho maior.  Dizem que era bem feminina, possuidora de um belíssimo corpo, estátua baixa, pela escura e peluda. Assim descreveu sobre si mesma: " A natureza não foi madrinha, me recusou o esplendor do rosto, compensarei com minha genialidade satânica e com noites atrozes, onde os cegos enxergarão com a potência dos meus sentidos..."
               Politicamente teve implicações na conspiração dos nobres contra o governo democrático, foi exilada por infâmia. Mudou-se para Siracusa, casando-se com um ricaço, permanecendo pura e intocada pelo membro masculino, como fez questão de acentuar:
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 "E virgem permanecerei sempre, mas se algum dia acontecer de encontrar uma menina... na ocasião a possuirei com ardor e também em mim mesma usarei um objeto com ponta e bem afiado..."
               Suas queridinha amantes não lhe deram exclusivamente prazer orgásmico. Conta-se que uma jovem loura provocou a ira de Safo causando-lhe ciumes e foi esganada. Uma outra loura, sua amante, entregou-se a um militar e, desta vez a poetisa desabou com sua pena: 
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"Attide, não lembras do luar banhando teu despido corpo? E minha língua rósea que levemente escorregava no teu escuro orifício? De ti me persiste a memória e em ti não existe lembrança! Lembrarás dos meus braços que tantas e tantas vezes te transportaram ao êxtase?"
                A infiel loura apaixonou-se pelo militar grega, arrancando lágrimas de Safo: 
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"O amor, quem é o homem que senta à tua frente? 
Ah! me sinto enlevada pelo macho que está ao teu lado porque já me falta a voz, e sinto a língua partida.
Debaixo da pele,  um fogo implacável circula.
Os meus olhos não enxergam mais...
Te desejo, ainda te quero, te arrancarei dele...
O suor me inunda, os meus braços de macho te sacodem e te apertam.
Oh, seu eu tivesse músculos para desmembrar-te para sempre! 
Devo resignar-me por não possuir aquelas três coisas do macho?
Nunca! Voltarás para mim e "ali" te abrirei, 
Enlouquecerás e esquecerás".
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             Safo jamais se cansava de repetir suas preferências.
"Amo a vida elegante e mulheres louras, claras como a lua,
refinadas e esquivas.
A beleza de minha amante é para mim como a luz do sol".
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              Na necrópole heleno - egípcia de Ossirinco, foram descobertos alguns sonetos lésbicos, em louvor à mulher, gravados em sarcófagos. 
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"Permaneces imóvel e do lado de lá conheces. 
Eu sinto nos meus braços mudos os tormento do verão nas primeiras chuvas, 
O medo do teu frio seio e da tua flor no alto.
Meu rosto reclamará de ti suor e lágrimas. 
Mas, pobre de mim, serei como meus dedos, vazios, áridos. 
Chama, ó amada, a vida repetida, de que quem por ti a paixão prosta..."
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OUTRAS BELÍSSIMAS OBRAS
"Oh, tu imortal beleza, tecedora de enganos, 
peço-lhe não demonstrar com penas e ânsias de amor o meu corpo e o meu coração!
Te adoro! 
Te quero para mim e para sempre.
Aqui vieste, voltaste. 
De longe ouviste minha voz e deixaste pai e mãe para seguir-me no leito dourado...
Te conduziram pássaros leves e elegantes sobre a terra escura dos meus braços fortes. 
Rapidamente vieste. Gritaste.
E tu maravilha, sorrindo em teu rosto mortal me perguntaste de que penas sofrias e o que ainda suplicava...
No meu peito em delírio, sobre meu seio inexistente o que, diga-me, suplicavas?
Tu? Oh, mas se foges agora, cedo te perseguirei. 
Se recusares presentes, muito cedo presentes te darei. 
Se não me amas, cedo me amarás, mesmo contra a tua vontade. 
Venha a mim agora!
Quanto clamor se compraz o teu corpo, 
e sobre o meu o teu grande prazer, finalmente se cumpra! 
És minha! 
Tu própria, no espasmo final que me dás tua beleza e me assistes..."
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O sangue flutua rápido em minhas veias; um acre calor invade minhas fibras.
Ruborizo-me. 
Baixa a voz ao responder um gentil pensamento, inutilmente procuro e não acho. 
Com tumulto e força bate o sangue no meu peito.
Morre a voz, enquanto eu passo minha língua em sua boca".
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Guardo a chama dentro do meu sangue e fervo, 
um estúpido e continuado tintilar, me enche os ouvidos, e sonho. 
Levando o olhar, e entrevejo sombra de macho. 
Me encontro apagada, um suor gelado, 
a fisionomia morta como erva que não cresce, 
tremendo em arrepios, 
enquanto minha língua ativa se dirige em tua direção. 
Anseio a ti cada vez mais, quase até a morte certa apagar este fogo". 
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"Virgindade, virgindade me deixas, onde vais? 
Não voltarei mais para ti, cunca mais.
Tu és a flor purpúrea, que meus braço rudes, 
pisam no abraço e aqui deitam, enquanto lá fora
a brilhante aurora de beijos, carícias, humores
e morte, venham para mim, porque tanto te desejei..."
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Uiva o vento entre as árvores. 
O meu não parece um rumor, 
mas é o amor que corre, 
a paixão devoradora pelos teus lindos cabelos e teus membros alvos,
me esgota e me quebra.
Assim só, te desejo, eu morro!"
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Alegria de viver mais não tenho. 
A vontade de morrer se apossa de mim, 
ver o lótus, molhado de orvalho às margens do Acheronte..."
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"Oh, fêmea, que meu hálito não sentir e não provar, 
ir aqui e ali entre obscuros mortos que esvoaçam sobre sua traição. 
Oh ! amor, 
que pudesse eu com meus braços sufocar-te. 
e aquela vida de erros em segundo apagar..."
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"É como a maçã vermelha em seu ramo mais alto, 
 os colhedores a esquecem. 
Não a esqueceu quem era como ela, 
mas também não conseguiu alcançá-la".
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PUDOR 
Por Safo 
A teus dotes qual mais encantador
tu ajuntas, amável criatura, 
um para mim de todos os maior, 
e que até embeleza a formosura: 
O pudor!



                 

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